Aposto o braço do meu ex-patrão que quando você era apenas um garotinho, ou se for velho, quando era um adolescente, tinha um boné, pochete ou camiseta do Charlotte Hornets com aquela simpática abelha, que na verdade não é abelha, mas uma vespa, estampada. Bons tempos, não é verdade meu chapa? Pois bem, se ainda não te informaram, o Charlotte Hornets acabou, ou melhor, mudou. Foi para New Orleans e nessa coluna vou explicar como se procedeu essa mudança com um brinde: ler os comentários pessoais dessa mula que vos escreve.
O ano era 2002, o Brasil era pentacampeão, o Oliver Kahn tomou um frangaço, o Lula foi eleito e a Dercy Gonçalves ainda era viva. Neste ano, além dos acontecimentos citados, também era ano de renovação dos direitos nominais da cidade de Charlotte com a franquia Hornets da NBA. Contudo, o cartola máximo da equipe do Hornets, Sr. Shinn, estava deveras preocupado porque o bom resultado da equipe em quadra (naquela época formada por Baron Davis, Wesley, Mashburn, PJ Brown e Campbell) não resultava naquilo que os cartolas mais querem, e não são vitórias ou títulos, mas sim os lucros.
Em primeiro lugar, o nível de público nos jogos do Charlotte Coliseum era um dos mais baixos em toda a liga, apesar da equipe se mostrar um um time competitivo e com muito talento. Para resolver esta questão, o Sr. Shinn resolveu que seria mais pertinente a construção de uma nova arena, com mais opções de entretenimento e que pudesse ser um fator para atrair um maior número de expectadores para suas partidas. Dessa forma, o cartola do Hornets dirigiu-se a prefeitura da cidade para pedir o financiamento dessa nova instalação desportiva e, a partir daí, que começou todo o o bafafá.
Em um primeiro momento, os vereadores e outros elementos da prefeitura de Charlotte queriam resolver isto por meio de um referendo. Isso mesmo, tal como na Venezuela e na Bolívia, era o povão que ia decidir se vão investir a grana do imposto em um ginásio esportivo. Entretanto, poucos dias antes do dito referendo o então prefeito de Charlotte, o Sr. Pat McCrory, vetou a legitimidade do referendo com a emissão de uma portaria municipal. O ato do prefeito dividiu a cidade, mas, muitos vereadores concordam com a atitude alegando que seria uma grande imoralidade para a cidade a construção de uma arena luxuosa em uma cidade de trabalhadores. Sabem como é, aquele discurso comunista e esquerdista, embora eu concorde que como contribuinte prefiro que a grana seja revertida em escolas e saúde do que em pavilhões esportivos sultuosos, não é verdade Sr. César Maia?
No entanto, segundo o site Sports Enciclopedy, o Sr. Shinn já era visto com muito maus olhos pela comunidade de Charlotte antes deste episódio. De acordo com o site gringo, o Sr. Shinn era alvo de um verdadeiro escândalo uma vez que este fora acusado de abuso sexual e, mesmo sendo considerado inocente anos depois, continuava a ser ostilizado pelos torcedores, habitantes e mídia local de Charlotte. Para piorar a situação, o cartola não reagiu nada bem com o veto dado pela prefeitura e procurou novamente o Sr. prefeito sobre a nova arena do Hornets mas, desta vez, em tom de exigência e ultimato.
E parece mesmo que o ultimato de Shinn deu algum resultado, porque os líderes da cidade cogitaram a construção de uma arena sem que necessitassem do apoio dos eleitores – bonito, não? – a fim de não permitirem que o time saísse da cidade. Mas não teve jeito. A situação para Shinn estava insustentável e ele pensava que em New Orleans a franquia poderia ter um mercado maior, uma mídia televisiva que apesar de pequena poderia vir a ser mais lucrativa e a possibilidade de jogar em uma arena com ótimas condições para Shinn: a New Orleans Arena, localizada ao lado do Superdome – utilizado pelo New Orleans Saints da NFL. Contudo, antes de New Orleans, eram cogitadas mudanças para Norflok, Louisville, St. Louis e Memphis, este último que acabou se ferrando por recepcionarem a porcaria do Grizzlers, que apodrecia muito lá nas terras gélidas do Canadá, mais precisamente em Vancouver.
Assim, a NBA aprovou o negócio e sensibilizada com a prefeitura de Charlotte prometeu que em breve a cidade teria uma nova franquia. Aí nasceu o Charlotte Bobcats e, por incrível que pareça, atualmente jogam em uma nova arena construída com o nome Charlotte Bobcats Arena e renomeada para The Warner Cable Arena, motivos comerciais é óbvio.
Desde então, o Sr. Shinn nunca mais pisou em Charlotte, mas em uma entrevista concedida ao jornal Charlotte Observatory, em 2008, admitiu que “foi um mau julgamento que mudou toda a minha vida”. Na mesma entrevista, ele afirmou que seu maior erro foi ter se afastado do público depois das acusações de abuso sexual. Ainda em tom de confissão, o Sr. Shinn declarou que: “cometi muitos erros em minha vida. Mas não vou cometer outro aqui (em New Orleans). Nós estamos aqui para fazer a cidade funcionar”.
Confesso que muitas das coisas que acabei de relatar eu mesmo não tinha o conhecimento, fiquei sensibilizado com todo o esforço da humilde cidade de Charlotte em manter-se no panorama do melhor do basquetebol mundial. Apesar do time modesto e de uma certa morosidade nas decisões desportivas, desejo alguma sorte a franquia porque fico imaginando as pessoas que amam o basquete naquele lugar que viram Glen Rice, Zo Morning, Baron Davis, Mashburn e outros bons jogadores ficando órfãos de repente do basquete. Seria bom que o Bobcats por respeito a esses cidadãos tivessem uma campanha e jogadores mais dignos com a história do basquete a cidade.
Sempre fui raivoso com o Bobcats, mas depois dessa história comecei a me solidariezar um pouco mais. Principalmente agora que eles tem Tyson Chandler, um jogador que eu sempre me identifiquei porque apesar de suas limitações técnicas, era muito leal ao time, esforçado, batalhador e vibrador. Por essas razões, não se assustem se mais a frente eu fizer uma fézinha para os bobgatos vencerem alguns jogos, desde que não seja contra o Hornets, claro.